medo de morrer
o que a gestação me ensinou sobre a arte selvagem de se render à vida.
Achei que já não tivesse mais medo de morrer. De fato, a ruptura repentina da minha existência, ou a passagem para um outro plano, já não me intimida mais. Não temo essa ameaça mais fatídica da existência. Morrer é o maior clichê e a única certeza de quem vive. E já aprendi a não discutir com a vida, quem dirá com o inevitável dessa experiência à qual todos estamos rendidos.
Mas outro grande fato é que, em vida, não se morre só uma vez. Quando olho pra trás, consigo ver muitas versões de mim que morreram. De algumas sinto falta, de outras nem tanto.
Desde o dia em que eu descobri que estava grávida, e nos quatro meses subsequentes, fui tomada por um medo enorme. Eu fui absorvida pelo medo de morrer. Fui esmagada pela constatação de que aquela vida que eu estava gerando representava também a morte de muita coisa dentro de mim que eu não sabia nomear, muito menos controlar.
Eu até consegui controlar a culpa por sentir tudo isso, mas não o medo. O medo eu não consegui controlar.
Senti autocompaixão quando me vi desesperada por não saber o que de mim estava prestes a morrer. Me acolhi quando me vi incapaz, naquele momento, de criar uma conexão verdadeira e amorosa com aquele serzinho dentro de mim. Quando me vi agoniada diante das mudanças bruscas no espelho. E consegui, aos poucos, controlar o desespero que de tempos em tempos aparecia ao constatar que não tinha mais controle nem sobre o meu próprio corpo, quem diria sobre a minha morte iminente.
Hoje me compadeço da minha própria inexperiência diante dessa coisa toda nova e assustadora que me acometeu. Não sinto falta dessa versão mais medrosa de mim que, ainda que não tenha morrido, neste momento sofre de um desmaio, ou talvez de um coma induzido.
É engraçado como a vida, tão cíclica, nos faz revisitar sentimentos muito parecidos, mesmo que em situações aparentemente distintas. Sempre que isso acontece me lembro do quão longe ainda estou de saber. Saber sobre tudo, como diria Raul, sobre o que eu nem sei.
Me vi tendo alguns sentimentos parecidos com os que tive na minha última grande morte, há 3 anos, quando matei a minha versão corporativa. Ali eu também não fazia a menor ideia do que viria depois daquela decisão, eu só tinha a certeza do que já não me pertencia mais. A principal diferença daquela morte e dessa última acredito que tenha sido a escolha consciente. Ali eu decidi morrer. Dessa vez me senti prestes a morrer sem querer, e sem saber que eu precisava morrer de novo, pelo menos não tão cedo. E carrego aquela mesma certeza de que em breve não serei mais a versão que viveu até aqui.
Sinto que passei por uma espécie de portal que rapidamente se abriu. E agora me vejo imóvel diante de um túnel de luz imenso, com um clarão tão forte que não me permite enxergar um mísero passo à frente, mas que é, sem dúvida nenhuma, divino. Além desse túnel ser a minha única opção de passagem nesse momento, sei também que, dessa vez, não avançarei por ele sozinha.
Por mais incontrolável que tudo isso pareça, algo dentro de mim grita que eu deveria estar justamente aqui: morrendo e, ao mesmo tempo, me fazendo lar, alimento e único mundo possível para o Gregório. Gerando um novo corpo, enquanto vejo o meu se transformar, entregue a uma espécie de devoção puramente instintiva. É como se eu estivesse assistindo, de um plano paralelo, a natureza se fazendo absoluta e potente sobre mim. Me sinto em um estado contemplativo da minha própria natureza animal, e totalmente rendida a ela.
Essa minha rendição talvez seja a única forma que encontrei de sobreviver a tudo isso. Mas também representa esse meu maravilhamento diante do destino concretizado, do meu absoluto descontrole e da minha pequenez diante da vida. E diante também da minha desconhecida grandeza, dessa capacidade de gerar uma vida totalmente nova.
Sou eu me doando e me deixando morrer pra que duas novas vidas nasçam. A dele e a minha.
E, durante esses oito meses até aqui, me senti guiada e encorajada por forças que são muito superiores a mim. Estou gestando, mas ao mesmo tempo me sinto sendo gestada. Pela minha mãe, pelas minhas avós, pela natureza feminina, pelas leoas e lobas. É como se eu fosse a menor bonequinha daquele conjunto de matrioskas russas que cobrem uma a outra com seus corpinhos redondos. Me sinto amparada por essa força selvagem que não consigo dar nome, nem explicar seu tamanho. Só sei que ela me guarda, me nutre e me acompanha desde o dia que ele foi fecundado dentro de mim.
Por essas forças, pelo Gregório, e pelo que sou, hoje me sinto pronta pra morrer de novo. E, para experimentar a grandiosidade da vida, eu estarei sempre pronta pra morrer quantas vezes for preciso. Prefiro mil vezes a morte sabida do que a morte da experiência em vida.
Filho, por você, eu serei todas as bonequinhas do mundo. Me farei mãe, avó, leoa, loba e tudo o que for necessário pra que você tenha abrigo, nutrição, calor e amor em todas as vezes que você também precisar morrer. Para te dar condições de saber mais sobre você mesmo e sobre todas as coisas que você ainda não sabe. Para colorirmos nosso livro em branco, para explorarmos juntos cada passo nesse túnel divino do nosso tempo, no nosso tempo.
Pra você, eu guardo junto com seu pai um lar. Guardo também muitas versões de mim, as melhores que eu tiver, e as que ainda vamos conhecer e deixar morrer juntos.
Obrigada por vir me ensinar sobre a minha pequenez diante da grandeza da vida e, principalmente, por me fazer entender um pouco mais sobre a beleza da morte. Por me fazer contemplar esse meu mais puro estado de rendição à experiência de viver.
Te espero e já não vejo a hora de testemunhar o nosso amor nascer.



Que lindo, Amanda! Vc escreve muito bem! E chocada que tá grávida de 8 meses ❤️
Que texto lindo! Que seja um novo ciclo lindo, repleto de saúde e descobertas 🩵🩵